segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O dia seguinte às eleições: o exercício de pensar as capas dos jornais

Antes da imagem, existe a ideia.  Uma boa capa de jornal não é feita em minutos. É preciso pensar. E no dia seguinte às eleições, esse exercício se torna ainda mais evidente.

Todos os jornais têm praticamente a mesma notícia. Todos sabem quem venceu, quem perdeu, qual foi a votação e qual será a repercussão política. A informação é a mesma. O que muda é a maneira como cada publicação decide pensar visualmente esse acontecimento.

É aí que entra a criação.

O editor de arte ou capista não é aquele responsável por deixar a página bonita. Seu trabalho está muito mais próximo da interpretação. Ele precisa encontrar uma imagem, um conceito, uma metáfora ou uma construção gráfica capaz de condensar em poucos centímetros aquilo que a notícia representa.

Uma eleição pode ser representada por um rosto. Mas também pode ser representada por uma sombra, uma urna, uma multidão, uma bandeira, uma mudança de direção, um contraste, um vazio.

A questão não é encontrar uma imagem para acompanhar a notícia. É encontrar a imagem que melhor traduz a notícia. Essa diferença parece pequena, mas separa uma capa ilustrada de uma capa pensada. O trabalho do designer editorial não começa depois que o conteúdo está pronto, como se a redação produzisse a notícia e, depois, o capista simplesmente organizasse textos e imagens na página.

Na realidade, o design pode participar da própria construção da narrativa. E assim foi feita a capa de A Tribuna de hoje. A ideia foi apresentada ao editor e, depois de aprovada, o conteúdo editorial foi criado em cima do layout já estabelecido.

Neste caso, apostei em uma linguagem gráfica bastante direta, infográfica e de forte impacto visual, adequada à importância do resultado eleitoral e buscando para fugir do tradicional modelo com fotos dos candidatos lado a lado. 

O conceito central foi traduzir a oposição entre os dois candidatos divisão cromática — azul para Flávio Bolsonaro e vermelho para Lula, criando uma leitura imediata e quase simbólica da disputa.  A escolha de não utilizar fotografias dos concorrentes torna a capa mais icônica e editorial, aproximando-a de um cartaz político, sendo que os retratos em alto contraste funcionam como grandes massas gráficas.

Um detalhe que reforça a ideia visual da capa é o uso dos pictogramas de pessoas, representado os percentuais de votos volume gráfico, reforçando a dimensão quantitativa da eleição sem depender apenas dos números. Acredito que conseguimos transformar um resultado eleitoral essencialmente numérico em uma imagem-síntese, com poucos elementos e forte reconhecimento à distância.

Confesso que não vi muita criatividade nas capas dos jornais de hoje. Os concorrentes Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo publicaram layouts bem parecidos, com os candidatos ao cargo de presidente lado a lado e um mapa de como foi a votação no País.

Aqui, as capas dos jornais brasileiros de hoje, dia pós eleição presidencial.


















































sexta-feira, 11 de setembro de 2026

25 anos do 11 de Setembro. A força visual da capa e da página especial de A Tribuna

 Há acontecimentos que desafiam o design editorial. O 11 de Setembro de 2001 é um deles. Vinte e cinco anos depois,  a gente tem de pensar e repensar como ilustrar na capa de A Tribuna um dos piores acontecimentos da história da humanidade. Escolher não apenas relembrar os ataques ao World Trade Center, mas construir visualmente uma narrativa sobre memória, impacto e a passagem do tempo.

Na edição de hoje de A Tribuna, a capa e a página interna especial trabalham juntas, mas com propostas bastante diferentes.

Na a capa, abri mão de imagens na área central, deixando duas colunas livres, justamente para criar a referência às torres, numa espécie de silêncio antes da informação. Em vez de utilizar imediatamente fotografias dos prédios, dos aviões ou da destruição, o projeto cria duas grandes áreas verticais muito claras, posicionadas no centro da página que se tornam silhuetas arquitetônicas abstratas. Mas o desafio era transformar esse vazio em informação.

Uma solução visual que fizesse com que o leitor tivesse a leitura de que as torres estão presentes justamente porque não estão mais ali.

Essa medida também conversa muito bem com a própria natureza do acontecimento. O World Trade Center era uma presença arquitetônica monumental na paisagem de Nova York. Ao retirar as torres da fotografia e transformá-las em espaços vazios, o design desloca a discussão da imagem documental para a memória.



Na página interna o projeto muda completamente de comportamento. 

Se na capa trabalhei com com branco e áreas invisíveis para que o leitor tivesse um impacto visual claro mas sem chocar,  o layout interno usa o fundo preto para criar imediatamente uma ruptura com o restante do jornal.

O uso das Torres Gêmeas como suporte ao texto deixa claro ao leitor o tema da reportagem.  Mas elas eram necessárias para compor o layout. O título, também usado na capa, é uma repetição deliberada e proposital. Assim, as duas páginas passam a funcionar como partes de um mesmo projeto editorial.

Para compor melhor o layout, o uso das imagens se fez necessário. A fotografia do avião atingindo a segunda torre ocupa uma posição dominante no lado direito, sendo a imagem documental que ancora toda a narrativa, com enorme força visual. Mas optei por não usar a fotografia grande, mas sim, ao lado dos textos, depoimentos e outras fotografias.

Dessa forma, o texto aplicado sobre as torres se transforma na imagem-símbolo da narrativa.

Nesse layout, procurei usar três elementos de formas diferentes para dar movimento à página.

1 - Os quatro retratos circulares são uma das soluções gráficas mais interessantes da página, quebrando a predominância dos retângulos — fotografia principal, colunas de texto e reprodução da capa antiga — criando ritmo dentro da composição.

2 - A reprodução da antiga capa de A Tribuna de 2001, com a manchete Dia do terror, tem o impacto visual e se torna o elemento mais importante para o conceito de memória. O jornal de 2026 olha para o jornal de 2001.

3 - A linha do tempo, na silhueta de Nova York funciona como uma base visual para a cronologia. As torres aparecem novamente incorporadas à paisagem, e os horários  (8h46, 9h03, 9h59 e 10h28) conduzem o leitor pela sequência dos acontecimentos.

 O que eu tentei criar com essas páginas foi o contraste entre elas mas ainda assim, relacioná-las.

A capa faz o leitor imaginar. A página interna faz o leitor lembrar.


VEJA TAMBÉM AS CAPAS DE HOJE DOS JORNAIS NORTE-AMERICANOS E OS 25 ANOS DO ATAQUE AO WTC


E MAIS: OS JORNAIS DO MUNDO NO DIA 11 DE SETEMBRO DE 2001


25 anos depois, os jornais americanos olham novamente para o 11 de Setembro

 Vinte e cinco anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, os jornais norte-americanos voltam a colocar o World Trade Center no centro de suas capas. Mas, desta vez, a abordagem é diferente daquela de 2001: não há o choque da notícia, e sim a memória, a lembrança, as homenagens e a pergunta: o que mudou e o que aprendemos com as marcas deixadas por uma tragédia que transformou os Estados Unidos?

Nas capas de hoje, 11 de setembro de 2026, a imagem das Torres Gêmeas continua sendo um poderoso elemento gráfico. De alguma forma, elas, as torres, se fazem presentes. Fotografias, silhuetas, memoriais e referências às vítimas aparecem como símbolos de uma história que permanece na memória de todos. O tratamento visual tende a ser mais sóbrio e contemplativo, deixando que a fotografia e o espaço em branco tenham um papel tão importante quanto os títulos.

É interessante observar como o jornalismo impresso transforma uma data histórica em linguagem visual. Depois de 25 anos, o desafio não é simplesmente mostrar novamente a destruição das torres, mas encontrar uma imagem capaz de representar memória, ausência e passagem do tempo.

As capas americanas de hoje mostram que, para o design editorial, algumas imagens ultrapassam a condição de fotografia e se tornam símbolos permanentes de uma época.

















VEJA TAMBÉM AS CAPAS DOS JORNAIS NO DIA 11 DE SETEMBRO DE 2001


E MAIS: VEJA COMO FOI CRIADO O PROJETO DE CAPA E PÁGINA INTERNA DE A TRIBUNA SOBRE OS 25 ANOS DO ATAQUE AO WTC

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Moraes e Vorcaro. A mesma notícia, diferentes maneiras de chamar a atenção

As capas dos jornais brasileiros de hoje em comum o tema principal de seus layouts: o vazamento de mensagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. E como os jornais brasileiros apresentaram em suas páginas o assunto?

Cada jornal encontrou uma maneira própria de construir visualmente a notícia. Do ponto de vista gráfico, é esse contraste que torna a observação interessante. A notícia pode ser a mesma, mas a leitura proposta ao leitor não é. O tamanho da fotografia, a posição da manchete, o uso do branco e até a quantidade de elementos ao redor ajudam a determinar o peso que aquela história terá na percepção de quem passa os olhos pela banca.

Entre as soluções apresentadas hoje, as capas que conseguem combinar impacto e síntese são, visualmente, as mais eficientes. Não necessariamente são as que usam a maior foto ou o maior título, mas aquelas que conseguem criar uma hierarquia clara e fazer o leitor entender rapidamente qual é o assunto principal.

O Jornal de Brasília, por exemplo, não utiliza foto, mas consegue através da reprodução de um celular, aproximar o leitor da notícia, como também fez o Estado de Minas, que somente com a manchete já diz tudo (ainda que eu ache que ela se perde no meio da página, espremida pelos blocos de texto.

Abaixo, as capas de hoje dos jornais brasileiros.





















LEIA TAMBÉM A CONCEPÇÃO DA CAPA DE A TRIBUNA COM A SILHUETA DE MORAES COM ELEMENTO ESSENCIAL DO DESIGN.