Mostrando postagens com marcador Tipografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tipografia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A primeira capa de O Globo (1925): uma análise do design editorial que marcou a imprensa brasileira

Em 29 de julho de 1925 chegava às bancas a primeira edição de O Globo. Cem anos depois, aquela capa continua sendo um documento fascinante da evolução do design editorial brasileiro, revelando como tipografia, hierarquia visual e diagramação ajudavam a construir credibilidade em uma imprensa que ainda consolidava sua identidade.

Como era a primeira capa de O Globo em 1925?


Uma capa construída pela tipografia

O aspecto que chama muito a atenção é a ausência de uma manchete dominante. Ao contrário dos jornais atuais, a primeira página é formada por diversos blocos de texto de importância semelhante. O leitor não era conduzido por uma hierarquia visual clara. Ele precisava explorar a página em busca das notícias de interesse. Essa solução gráfica era comum na década de 1920 porque o jornal era entendido como um repositório de informações, e não como um produto pensado para leitura rápida.

A influência francesa

O projeto gráfico segue fortemente a tradição francesa, que influenciava grande parte da imprensa brasileira.com uma diagramação extremamente vertical; colunas estreitas e numerosas; uso quase exclusivo de tipos serifados; poucos espaços em branco; grande densidade de texto; títulos discretos e uniformes.

Esse modelo privilegiava elegância tipográfica e racionalidade em vez do impacto visual.


CONHEÇA AQUI UM POUCO MAIS SOBRE A HISTÓRIA DE O GLOBO


O nome do jornal como principal elemento gráfico



Na ausência de fotografias e grandes manchetes, o logotipo de O Globo torna-se o elemento visual mais importante da página, onde o cabeçalho apresenta leras desenhadas especialmente para o jornal; grande contraste entre traços finos e grossos; composição clássica; equilíbrio e simetria. Na prática, a marca precisava comunicar prestígio e credibilidade logo no primeiro contato com o leitor.

A fotografia ainda era secundária

Na década de 1920 a impressão em rotativas dificultava a reprodução de imagens com boa qualidade. Por isso o uso de fotografias era raro. Ilustrações apareciam apenas ocasionalmente, fazendo com que praticamente toda a informação da página dependesse da tipografia.


A tipografia da primeira edição de O Globo

O primeiro elemento que chama a atenção é cabeçalho do jornal. O nome O GLOBO ocupa toda a largura da página em uma tipografia serifada, pesada e de alto contraste, transmitindo autoridade e credibilidade — características essenciais para um veículo que chegava ao mercado.

Logo acima, o selo "Edição das 18 Horas" reforça o caráter imediato da publicação, evidenciando sua vocação como jornal vespertino.

A manchete principal, "Voltam-se as vistas para a nossa borracha!", utiliza uma fonte sem serifa, em caixa alta, solução que representava uma tendência moderna para a época. O objetivo era chamar a atenção rapidamente do leitor nas bancas.

Outro aspecto marcante é a variedade tipográfica. A página combina fontes serifadas, sans-serif, itálicos, negritos e diferentes tamanhos de letras para estabelecer uma clara hierarquia visual entre manchetes, chamadas, notas e anúncios.


O grid e a diagramação do jornal O Globo em 1925



A diagramação segue um grid extremamente rígido, organizado em sete colunas verticais.

Praticamente não existe espaço em branco. A mancha gráfica ocupa quase toda a página, com margens reduzidas, refletindo uma época em que o papel era um recurso caro e cada centímetro precisava ser aproveitado.

Para organizar esse grande volume de informação, os diagramadores recorreriam intensamente aos fios verticais e horizontais, que funcionam como uma estrutura invisível capaz de separar notícias, orientar a leitura e criar ordem, evitandor que o leitor se perdesse na densidade de texto. Os fios dividem visualmente cada notícia, funcionando como a estrutura invisível do layout.

Mesmo cem anos depois, essa solução continua sendo um dos princípios fundamentais do design editorial.

Embora o texto ainda seja predominante, a imagem já assume papel importante na construção da capa.

No canto inferior direito aparece uma fotografia do empresário Henry Ford, enquanto outra reportagem utiliza imagens para mostrar obras urbanas na seção A Cidade Esburacada.

Em 1925, publicar fotografias na primeira página representava um investimento tecnológico significativo. O processo de produção dos clichês metálicos era caro, demorado e exigia grande precisão técnica.

As ilustrações também aparecem com destaque. Charges e caricaturas ajudam a equilibrar a composição, oferecendo humor, crítica política e descanso visual em uma página repleta de informação.


Seria esse o princípio da infografia?

Outro detalhe interessante está na coluna da direita. Pequenos desenhos comparativos de automóveis ilustram o crescimento da frota nacional. Embora bastante simples, esses elementos podem ser considerados uma forma inicial de design da informação ou infografia, recurso que buscava transformar números em informação visual mais acessível ao leitor. Hoje, gráficos e infográficos são parte indispensável dos jornais. Em 1925, ainda davam seus primeiros passos. Para compreender a importância dessa capa, é preciso observar o contexto gráfico da época.


Como eram os jornais brasileiros na década de 1920?

O horror do espaço em branco

Uma das principais características dos jornais dos anos 1920 era o chamado horror vacui, ou, literalmente, o medo do vazio, do espaço em branco, do respiro, tão usado no design atual.

Como o papel possuía custo elevado, praticamente todo o espaço disponível era ocupado por notícias, anúncios ou ilustrações. Para os olhos atuais, a página pode parecer excessivamente carregada. Na época, entretanto, ela transmitia justamente a sensação de riqueza de conteúdo. Outro fator determinante era a utilização das máquinas de linotipo, responsáveis pela composição do texto em metal quente. Essa tecnologia favorecia páginas organizadas em colunas rígidas e dificultava experimentações gráficas mais ousadas. Por isso, praticamente todos os jornais apresentavam estruturas bastante semelhantes.

A década de 1920 também marcou a consolidação do fotojornalismo.

Se os jornais do século XIX eram predominantemente compostos por texto, as fotografias passaram a exercer um papel decisivo para atrair leitores nas bancas. Esse movimento abriria caminho para as capas altamente visuais que se tornariam comuns nas décadas seguintes.

Um fenômeno importante foi a crescente presença da publicidade. Os anúncios utilizavam lettering desenhado à mão, molduras ornamentadas e ilustrações inspiradas no Art Déco e em estilos gráficos ainda herdados do final do século XIX. A convivência entre jornalismo e publicidade contribuiu para tornar as páginas visualmente mais ricas e diversificadas.

A criação de jornais destinados ao final da tarde também alterou a forma de diagramar as capas. Como disputavam a atenção de quem voltava do trabalho, essas publicações precisavam ser mais chamativas, utilizando manchetes maiores, títulos de forte impacto e uma organização visual capaz de convencer o leitor em poucos segundos.


Uma capa que ainda ensina design editorial

Quase um século depois, a primeira edição de O Globo continua sendo uma referência para estudantes, jornalistas e designers. Ela mostra que, mesmo diante de severas limitações tecnológicas, já existia uma clara preocupação com hierarquia da informação, organização do grid, tipografia e experiência de leitura. Ao observar essa capa, fica evidente que muitos dos fundamentos do design editorial contemporâneo nasceram muito antes da era digital e continuam presentes nas redações e nos projetos gráficos atuais.

Mais do que um jornal histórico, a primeira edição de O Globo demonstra como boas decisões de design permanecem relevantes um século depois. A organização das informações, a clareza tipográfica e a construção visual da credibilidade continuam sendo princípios fundamentais para jornais impressos e digitais.


Se você gosta de analisar capas históricas, jornais e revistas que marcaram época, confira também estes artigos do Se Vira Design:

OS 70 ANOS DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS

CAPAS HISTÓRICAS DE A TRIBUNA NO ANIVERÁRIO DA CIDADE DE SANTOS

A RENÚNCIA DE COLLOR E A MORTE DE DANIELA PERES

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Contrastes. As capas dos jornais argentinos e ingleses


E não poderia ser diferente. O contraste nas capas dos jornais argentinos e ingleses do dia seguinte à semifinal é clara. E conta uma história antes mesmo da leitura da primeira linha. Na Argentina, a festa toma conta das páginas, sendo esportivos ou não. Praticamente capas pôster, monotemáticas, com  fotos de celebração, cores vibrantes, títulos gigantes e um clima de conquista que parece querer saltar do papel.

Já na Inglaterra, o sentimento é o oposto. As capas apostam em imagens de frustração, olhares perdidos e manchetes que traduzem a decepção de quem viu o sonho escapar mais uma vez.

É justamente aí que o design editorial mostra sua força. Não precisa de muito. Com uma boa fotografia, a escolha da tipografia correta, cores e composição, os jornais conseguem transmitir emoções aos leitores. Mesmo sem ler uma única palavra, o leitor entende quem acordou vitorioso e quem amanheceu lamentando a derrota.

No fim das contas, as capas não apenas registram um resultado. Elas transformam a emoção de um país inteiro em uma única página.






















segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Design editorial – Como foi feito o Especial da Santa Casa de Santos

O especial da A Tribuna em homenagem aos 482 anos da Santa Casa de Santos é um exemplo elegante de design editorial que une tradição, clareza e sofisticação visual.






O caderno especial da A Tribuna em homenagem aos 482 anos da Santa Casa de Santos foi pensado como o design editorial pode transformar informação histórica em uma experiência visual envolvente.  A ideia foi sair do obvio, criando um layout que agregasse o equilíbrio entre tradição e modernidade. Um projeto gráfico para traduzir quase meio milênio de história em páginas visualmente coesas e elegantes.

Estilo clássico e identidade histórica

Desde a capa, a intenção foi conduzir o leitor a um universo visual de solenidade e herança cultural.
A tipografia serifada, os detalhes dourados e a moldura ornamental emolduram o conteúdo buscando sofisticação e remetendo à tradição das antigas publicações institucionais. Para isso, a escolha do dourado serviu para transmitir prestígio e celebração, enquanto o fundo claro garante leitura confortável e contraste equilibrado. O resultado é um design que respeita a história sem parecer datado.

Composição e hierarquia visual

A capa é o ponto alto do projeto, afinal é através dela que o leitor inicia a viagem pelo suplemento especial. Por isso, a fotografia frontal da Santa Casa, de autoria de Alexsander Ferrraz,  ocupa o centro da composição, transmitindo imponência e estabilidade. Para compor o visual da capa, optei pelo título em caixa alta, com tipografia clássica e espaçamento generoso, reforçando o caráter comemorativo.
Nas páginas internas, procurei criar um layout construído com colunas simétricas, margens amplas e uso consistente de capitulares douradas. Os títulos em letras maiúsculas e o grid bem estruturado facilitam a leitura e criam ritmo visual entre os blocos de texto e imagem.

Imagens e narrativa visual

Para dar um visual mais contemporâneo às fotografias históricas, deixei-as todas em sépia, com a ideia de criar uma clara ponte visual entre o passado e o presente. O uso de ilustrações de personagens históricos acrescentam toques de cor e humanização, quebrando a rigidez do texto e tornando o conteúdo mais acessível. Cada imagem foi tratada com cuidado: legendas discretas e  integração com o texto para garantir fluidez na leitura.
Com isso, acredito que a diagramação evidencia que o conteúdo visual é parte da narrativa — não apenas um complemento.

Dois pontos foram objetos de estudo e preocupação de minha parte na confecção das páginas: a utilização da cor e da tipografia. A moldura dourada que percorre todas as páginas atua como um elemento de identidade, criando unidade entre os diferentes conteúdos.
Mesmo com o uso de recursos ornamentais, acredito que o projeto não tenha se tornado excessivo, mantendo o equilíbrio entre tradição, clareza e ritmo visual.

A ideia na criação do especial da Santa Casa de Santos foi fazer algo mais do que um suplemento jornalístico, mas uma peça de design atemporal, com rigor gráfico e estética refinada, para demonstrar como o design editorial pode preservar a história com elegância e relevância contemporânea.
Um design que não apenas comunica, mas também celebra.

Em tempo: os textos são de Anderson Firmino, a edição de Bruno Rios tendo a colaboração de Rafael Motta.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Tipografia da Jabulani é brasileira

Você Sabia?
A tipografia utilizada nas bolas Jabulani, que estão sendo usadas na Copa do Mundo é uma criação de Yomar Augusto, designer gráfico nascido em Brasília. A tipografia Unity foi produzida na época em que Yomar trabalhava na agência 180 Amsterdam, que possui entre seus clientes, a Adidas, patrocinadora do evento e de algumas seleções participantes da Copa do Mundo (a tipografia está na camisa da Alemanha, Argentina, França, China, Dinamarca, Espanha, Grécia e Japão).



Yomar Augusto levou três meses para produzir toda a tipografia. A base iniciou com o número 8, no qual usou dois triângulos inversos, com curvas nas vértices. O designer se inspirou em formas típicas da década de 1960. Segundo Yomar, em entrevista para Dado Carvalho, do Estadão, “Na época, havia a história da corrida espacial, que influenciou muito o design”.

Yomar estudou na Escola de Artes Visuais em Nova Iorque e depois abriu um estúdio próprio no Rio de Janeiro. Entre 2004 e 2005, realizou o mestrado em design na Academia Real de Arte de Haia, na Holanda. Concluiu o curso e não saiu mais de lá. Atualmente, trabalha como freelancer no País.

fonte: papel digital