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segunda-feira, 16 de março de 2026

Como Poty Lazzarotto transformou Grande Sertão: Veredas em uma capa icônica

Para ilustrar a reportagem sobre os 70 anos do lançamento do clássico literário de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, inspirei-me na obra de Poty Lazzarotto, autor da capa da primeira edição do livro.

Não se trata de uma cópia, mas de uma adaptação visual da capa do livro para a página do jornal.

Veja aqui o processo de criação do layout

Mas, neste post, vou me ater a um pequeno estudo que fiz sobre a capa original para compor o layout da página dupla publicada em A Tribuna.

A capa, de 1956, é considerada uma das mais importantes da história do design editorial no Brasil. Repleta de símbolos ligados à narrativa de Guimarães Rosa, ela funciona quase como um resumo visual da obra, justamente porque consegue traduzir o universo do romance em uma única arte.

Poty espalha diversos elementos presentes na narrativa em meio à vegetação, como se sugerisse que o sertão é um labirinto, uma mistura de realidade, mito e filosofia que rege a história.

Os elementos são:

O jagunço armado
No centro da arte aparece um homem com espingarda, representando o universo dos jagunços, grupos armados que percorrem o sertão e que dominam boa parte da história narrada por Riobaldo.

O rosto feminino
Na parte superior há um rosto feminino que muitos estudiosos interpretam como uma referência a Diadorim, personagem central da trama e grande paixão de Riobaldo.

O diabo
No lado inferior esquerdo aparece uma figura com chifres, claramente associada ao diabo, remetendo ao tema central do romance: o possível pacto de Riobaldo com o demônio.

A caveira
No canto inferior direito surge uma caveira, símbolo da morte constante no sertão devido a duelos, emboscadas e batalhas.

A vegetação das veredas
As folhas verdes estilizadas representam o ambiente do cerrado e das veredas, provavelmente inspiradas no buriti, palmeira típica dessas áreas.

Existe uma leitura bastante interessante da capa de Grande Sertão: Veredas feita por estudiosos de design e literatura: ela funciona quase como um mapa simbólico do sertão. O ilustrador Poty Lazzarotto organizou os elementos como se fossem territórios ou forças que cercam a jornada de Riobaldo.

Norte (parte superior)
O rosto jovem, geralmente associado a Diadorim, aparece no alto da capa.
Simboliza o ideal, o amor e a figura que guia emocionalmente Riobaldo.

Leste (direita superior)
O cavalo representa movimento, travessia e as campanhas dos jagunços pelo sertão.

Oeste (lado esquerdo)
A figura com chifres remete ao diabo.
No romance, Riobaldo passa boa parte do tempo se perguntando se o demônio existe ou não e se ele teria feito um pacto. Esse lado da capa representa a tentação, a dúvida metafísica e o mal.

Sul (parte inferior)
A caveira simboliza o destino final das guerras do sertão: morte, violência e fatalidade.

Centro
No meio está o jagunço armado, que representa o próprio Riobaldo, o personagem que atravessa todas essas forças.

A capa praticamente antecipa a famosa frase do livro: “O sertão está em toda parte.”

Um detalhe tipográfico muito interessante da capa de Grande Sertão: Veredas é que o título não utiliza uma fonte tipográfica tradicional. As letras foram desenhadas manualmente por Poty Lazzarotto, algo bastante comum no design editorial brasileiro dos anos 1950.

O desenho do título apresenta características bem específicas: letras irregulares, com traço manual; aparência rústica e popular; peso de linha semelhante ao das ilustrações; formas levemente tortas e orgânicas.

Isso faz com que o título pareça parte do desenho, e não um elemento separado.

Muitos designers observam que o estilo lembra bastante letreiros pintados à mão em cidades do interior, placas de armazéns ou vendas rurais e cartazes populares do Brasil das décadas de 1940 e 1950. Ou seja, a tipografia também ajuda a construir o clima sertanejo do livro.

A capa funciona quase como uma síntese visual do universo criado por João Guimarães Rosa: sertão, misticismo, guerra de jagunços, amor trágico e a dúvida permanente entre Deus e o diabo. Poucas capas conseguem traduzir tão bem um romance complexo.

Curiosamente, essa capa quase foi rejeitada pela editora justamente por estampar símbolos fortes como o diabo e a caveira. Trata-se de uma história curiosa do design editorial brasileiro.

Quando o desenho foi apresentado, houve certo desconforto dentro da editora por causa de alguns elementos marcantes da ilustração: a figura do diabo; a caveira; o clima visual sombrio e simbólico.

Na década de 1950, capas de livros no Brasil costumavam ser mais discretas e literais, muitas vezes compostas apenas por tipografia ou por ilustrações neutras. A arte de Poty era muito expressiva e carregada de simbolismo, algo considerado comercialmente arriscado.

Apesar das dúvidas iniciais, a ilustração acabou sendo mantida porque traduzia bem o universo místico e violento do romance, tinha uma força gráfica incomum e dialogava com o caráter experimental da escrita de Guimarães Rosa.

Com o tempo, a capa se tornou icônica e hoje é frequentemente citada em estudos de design editorial como uma das mais importantes do país, justamente por conseguir sintetizar visualmente toda a obra.

Uma curiosidade: Poty não havia lido o romance inteiro quando começou a desenvolver a capa. Ele trabalhou muito a partir de conversas e de trechos do livro, criando uma interpretação visual própria, e acabou captando de forma surpreendente o espírito da obra.

Existe também um detalhe curioso envolvendo a primeira edição que interessa bastante aos colecionadores.

Nos primeiros exemplares impressos houve pequenos problemas tipográficos e de revisão, algo relativamente comum na época, especialmente em livros muito complexos de compor, e esse romance era extremamente desafiador para os tipógrafos.

Isso ocorreu porque o texto possui neologismos, regionalismos e palavras inventadas; a pontuação é pouco convencional; há frases muito longas e estruturas sintáticas incomuns.

Para os compositores tipográficos da gráfica, muitas vezes não era possível saber se algo era erro ou invenção do autor.

Na prática, alguns exemplares da primeira tiragem apresentam acentos ou grafias inconsistentes, pequenas falhas de composição e ajustes feitos em reimpressões da mesma edição.

Ou seja, dentro da própria primeira edição existem variações entre exemplares. Muitos revisores da época tentavam “corrigir” o texto, mas várias palavras estranhas eram invenções deliberadas de Guimarães Rosa. Assim, o que parecia erro tipográfico às vezes era, na verdade, parte do estilo literário do autor.

Uma curiosidade final sobre essa capa: ela foi pensada para funcionar bem mesmo quando impressa em baixa qualidade, como acontecia em muitas gráficas brasileiras dos anos 1950. Isso explica algumas escolhas fortes de linha e contraste.

Os 70 anos de Grande Sertão: Veredas e a criação de uma página especial sobre o clássico de João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos de publicação e mereceu uma reportagem especial, de autoria de Ronaldo Vaio, em A Tribuna.



E para criar esta página especial procurei construir uma linha visual que dialogasse diretamente com o universo da obra de João Guimarães Rosa. Minha intenção não foi apenas ilustrar a reportagem, mas criar uma composição gráfica que evocasse o sertão, seus símbolos e a atmosfera literária do romance.

O ponto de partida foi a referência histórica da primeira edição do livro, ilustrada por Poty Lazzarotto. Não foi uma cópia, e sim uma inspiração. E a partir disso, desenvolvi ilustrações em traço preto e branco, buscando um estilo que remetesse à gravura e à rusticidade gráfica associada ao sertão. Rabisquei no papel, mas como não sou ilustrador, fiz uso da tecnologia para melhorar os desenhos. Os personagens, objetos e símbolos presentes na página, como o jagunço, o revólver, o diabo e a caveira, funcionam como elementos narrativos que remetem aos conflitos, dilemas morais e à violência presentes na história.

Também procurei inserir elementos naturais que evocassem a paisagem das veredas. As folhas de buriti espalhadas ajudam a criar unidade visual entre os dois lados da página e trazendo a vegetação do sertão para dentro da composição.

A estrutura da diagramação diagramação da página foi pensada para conduzir o olhar do leitor. À esquerda, concentrei a reportagem principal, ancorada por um título forte sobre fundo vermelho, que marca visualmente o tema da página. No centro, inseri uma coluna com comentários de escritores e especialistas, cujo conteúdo acrescenta diferentes perspectivas sobre a obra.

Na página da direita, organizei conteúdos complementares — sinopse, biografia de João Guimarães Rosa e frases marcantes do livro, criando diferentes portas de entrada para o leitor. A gravura da paisagem do sertão foi posicionada nesse espaço como uma espécie de pausa visual, uma janela para o cenário que permeia toda a narrativa do romance.

A escolha das cores também foi pensada para reforçar esse ambiente. O vermelho destaca o título e casa perfeitamente com a capa original do livro, trazendo intensidade dramática; o amarelo remete à terra do sertão; o verde das folhas sugere as veredas; e o preto das ilustrações mantém a referência à gravura tradicional usada por Poty.

Mais do que uma simples página de jornal, procurei construir uma composição que dialogasse com o imaginário do sertão e com a força literária de Grande Sertão: Veredas, uma obra fundamental da literatura brasileira.