O dia seguinte às eleições, os jornais optaram pelo tradicional.
O resultado de uma eleição presidencial é um dos acontecimentos mais importantes para um país. É um momento de expectativa, tensão, comemoração e incerteza. Para os jornais, também é uma oportunidade de demonstrar como o design editorial pode traduzir um acontecimento histórico em uma imagem capaz de informar, emocionar e provocar reflexão.
Mas, ao observar as capas dos jornais desta segunda-feira, 26 de outubro, uma impressão se destaca: a mesmice na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Em um acontecimento que oferece tantas possibilidades narrativas, visuais e simbólicas, boa parte das capas parece ter preferido o caminho mais seguro. O que não é errado. Composições previsíveis, com foto do vencedor, manchetes diretas, cores tradicionais. Uma fórmula conhecida, eficiente para comunicar o resultado, mas que pouco explora a força visual e simbólica do momento.
Não digo que os capistas tenham de transformar a notícia em espetáculo. Isso pode muitas vezes confundir criatividade com exagero gráfico. O que eu gosto nestes momentos é o desafio de encontrar uma solução visual que tenha personalidade, que interprete o acontecimento e que faça o leitor parar por alguns segundos diante da banca ou da tela.
Talvez essa postura mais conservadora tenha uma explicação. Em uma eleição marcada por posições políticas opostas e por uma sociedade dividida, os jornais precisam transmitir credibilidade e evitar que suas escolhas visuais sejam interpretadas como manifestações de apoio ou rejeição a um candidato. Nesse contexto, a neutralidade pode ter pesado na decisão de seguir uma linguagem mais convencional.
E esse é um bom argumento para a escolha de cada jornal. Mas me questiono se ser imparcial significa, necessariamente, ser visualmente neutro?
Uma capa pode ser ousada sem ser partidária. Pode explorar tipografia, escala, enquadramento, espaços vazios, símbolos e contrastes sem favorecer politicamente ninguém. A criatividade não precisa estar a serviço de uma opinião. Pode estar a serviço da própria notícia.
O design editorial tem justamente essa capacidade de organizar informações, construir sentidos e estabelecer uma relação entre o acontecimento e o leitor. Em datas históricas, essa responsabilidade ganha outra dimensão. A capa deixa de ser apenas a embalagem da notícia e passa a integrar a memória visual daquele momento.
É claro que a capa de um jornal não precisa ser revolucionária todos os dias. A clareza, a hierarquia da informação e a tradição também têm seu valor. Mas, quando diferentes publicações recorrem praticamente ao mesmo repertório visual diante de um acontecimento de tamanha importância, vale perguntar se a segurança da fórmula não acaba limitando as possibilidades do próprio jornalismo.
FUGINDO À REGRA
Mas no universo das capas de hoje há uma exceção. O cearense O Povo, que aposta em uma solução gráfica de grande impacto: a fotografia em página inteira, a manchete sobreposta e pouquíssimos elementos concorrendo com a imagem principal. O resultado é uma capa que trabalha mais com a força simbólica da fotografia do que com a quantidade de informações.
A capa consegue transformar uma fotografia em narrativa editorial. O enquadramento, a escolha da imagem, a expressão de Lula, o vermelho dominante e a manchete branca trabalham juntos, em vez de funcionar como elementos independentes. Não há necessidade de uma montagem complexa, de múltiplas imagens ou de efeitos gráficos ostensivos. A solução foi o simples é mais.É um belo exemplo de como, no design de jornais, uma fotografia bem escolhida pode fazer o trabalho de vários elementos gráficos ao mesmo tempo.
Coincidentemente, o concorrente Diário do Nordeste publicou uma capa bastante semelhante à de O Povo. A imagem impactante mas que perde um pouco da força por não `rasgar`a página toda. Mas resultou em uma bela composição também.
No fim, a questão não é escolher entre imparcialidade e criatividade. É compreender que as duas podem ser impressas na primeira página de um jornal.
Abaixo, as capas dos jornais brasileiros de hoje, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.


























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