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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O adeus de Cristiano Ronaldo nas capas dos jornais portugueses

Cristiano Ronaldo: quando o design entra em campo para eternizar uma despedida








A despedida de Cristiano Ronaldo da Seleção de Portugal é uma ótima oportunidade para os capistas saírem do arroz com feijão habitual e prepararem um menu especial nas primeiras páginas dos jornais.

O acontecimento, que marca o encerramento de um capítulo importante da história do futebol português, também colocou a imprensa diante de um desafio gráfico: como traduzir em imagens e palavras a despedida de um dos maiores personagens do esporte mundial?

Ao observar o conjunto das primeiras páginas, percebe-se que diretores de arte e editores gráficos encontraram diferentes caminhos para contar essa história. Entre o tributo à trajetória vitoriosa e a melancolia de um adeus, fotografia, tipografia e composição assumem papéis fundamentais na construção das narrativas visuais.

No aspecto fotográfico, duas abordagens chamam a atenção. Os jornais esportivos apostaram na grandiosidade e na celebração, recorrendo a imagens icônicas de Ronaldo erguendo o troféu de campeão europeu, muitas vezes envolto na bandeira portuguesa. Uma escolha de forte apelo emocional, que resgata um dos momentos mais marcantes de sua trajetória com a camisa da Seleção.

Já parte da imprensa generalista preferiu explorar o simbolismo da despedida. Imagens do jogador de costas, com o emblemático número 7 e seu nome estampados na camisa, diante da imensidão de um gramado, ajudam a construir uma narrativa mais contemplativa. O contraste entre o vermelho da camisa e o verde do campo também funciona como um elemento cromático recorrente, reforçando a identidade portuguesa.

Na tipografia, o desafio foi encontrar palavras à altura do personagem. Manchetes curtas, letras de grande impacto e soluções gráficas criativas deram o tom das publicações. Um dos recursos mais interessantes é a integração do número 7 à própria palavra, transformando um símbolo esportivo em parte da mensagem. Em outras capas, blocos tipográficos robustos, cores vibrantes e até composições com reproduções de primeiras páginas antigas funcionam como pequenos arquivos visuais, reunindo diferentes momentos de uma carreira extraordinária.

Mais do que simplesmente anunciar uma despedida, essas capas procuram construir uma memória. E é interessante perceber como, mesmo partindo de um acontecimento comum, os jornais encontram maneiras diferentes de interpretá-lo visualmente.

No fim das contas, Cristiano Ronaldo deixa a Seleção, mas permanece nas páginas que ajudaram a contar sua história. E, nesse jogo, o design editorial também entra em campo: algumas capas celebram, outras emocionam, algumas surpreendem. Todas, à sua maneira, tentam transformar o adeus em algo eterno.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Capas dos jornais após as eleições: tradição, mesmice e falta de ousadia. Mas a uma exceção

O dia seguinte às eleições, os jornais optaram pelo tradicional.

O resultado de uma eleição presidencial é um dos acontecimentos mais importantes para um país. É um momento de expectativa, tensão, comemoração e incerteza. Para os jornais, também é uma oportunidade de demonstrar como o design editorial pode traduzir um acontecimento histórico em uma imagem capaz de informar, emocionar e provocar reflexão.

Mas, ao observar as capas dos jornais desta segunda-feira, 26 de outubro, uma impressão se destaca: a mesmice na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em um acontecimento que oferece tantas possibilidades narrativas, visuais e simbólicas, boa parte das capas parece ter preferido o caminho mais seguro. O que não é errado. Composições previsíveis, com foto do vencedor,  manchetes diretas, cores tradicionais. Uma fórmula conhecida, eficiente para comunicar o resultado, mas que pouco explora a força visual e simbólica do momento.

Não digo que os capistas tenham de transformar a notícia em espetáculo. Isso pode muitas vezes confundir criatividade com exagero gráfico. O que eu gosto nestes momentos é o desafio de encontrar uma solução visual que tenha personalidade, que interprete o acontecimento e que faça o leitor parar por alguns segundos diante da banca ou da tela.

Talvez essa postura mais conservadora tenha uma explicação. Em uma eleição marcada por posições políticas opostas e por uma sociedade dividida, os jornais precisam transmitir credibilidade e evitar que suas escolhas visuais sejam interpretadas como manifestações de apoio ou rejeição a um candidato. Nesse contexto, a neutralidade pode ter pesado na decisão de seguir uma linguagem mais convencional.

E esse é um bom argumento para a escolha de cada jornal. Mas me questiono se ser imparcial significa, necessariamente, ser visualmente neutro?

Uma capa pode ser ousada sem ser partidária. Pode explorar tipografia, escala, enquadramento, espaços vazios, símbolos e contrastes sem favorecer politicamente ninguém. A criatividade não precisa estar a serviço de uma opinião. Pode estar a serviço da própria notícia.

O design editorial tem justamente essa capacidade de organizar informações, construir sentidos e estabelecer uma relação entre o acontecimento e o leitor. Em datas históricas, essa responsabilidade ganha outra dimensão. A capa deixa de ser apenas a embalagem da notícia e passa a integrar a memória visual daquele momento.

É claro que a capa de um jornal não precisa ser revolucionária todos os dias. A clareza, a hierarquia da informação e a tradição também têm seu valor. Mas, quando diferentes publicações recorrem praticamente ao mesmo repertório visual diante de um acontecimento de tamanha importância, vale perguntar se a segurança da fórmula não acaba limitando as possibilidades do próprio jornalismo.

FUGINDO À REGRA


Mas no universo das capas de hoje há uma exceção. O cearense O Povo, que aposta em uma solução gráfica de grande impacto: a fotografia em página inteira, a manchete sobreposta e pouquíssimos elementos concorrendo com a imagem principal. O resultado é uma capa que trabalha mais com a força simbólica da fotografia do que com a quantidade de informações.

A capa consegue transformar uma fotografia em narrativa editorial. O enquadramento, a escolha da imagem, a expressão de Lula, o vermelho dominante e a manchete branca trabalham juntos, em vez de funcionar como elementos independentes. Não há necessidade de uma montagem complexa, de múltiplas imagens ou de efeitos gráficos ostensivos. A solução foi o simples é mais.É um belo exemplo de como, no design de jornais, uma fotografia bem escolhida pode fazer o trabalho de vários elementos gráficos ao mesmo tempo.

Coincidentemente, o concorrente Diário do Nordeste publicou uma capa bastante semelhante à de O Povo. A imagem impactante mas que perde um pouco da força por não `rasgar`a página toda. Mas resultou em uma bela composição também.

 

No fim, a questão não é escolher entre imparcialidade e criatividade. É compreender que as duas podem ser impressas na primeira página de um jornal.

Abaixo, as capas dos jornais brasileiros de hoje, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.


































quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Messi foi criativo. As capas dos jornais, nem tanto

Messi sempre foi sinônimo de criatividade. Dentro de campo, inventou caminhos, driblou padrões e encontrou soluções que pareciam impossíveis.

Nas capas dos jornais argentinos que marcam sua despedida da seleção, porém, o cenário é bem diferente.

Visualmente, os capistas parecem ter escolhido o caminho mais seguro: grandes fotos de Messi, emoção, homenagem e uma construção gráfica bastante semelhante entre si. A importância do personagem é enorme, mas faltou justamente aquilo que Messi sempre teve de sobra dentro do campo de futebol: ousadia para fazer diferente.

É curioso perceber esse contraste. O jogador que passou a carreira quebrando expectativas termina sua trajetória cercado por capas que, em muitos casos, parecem jogar pelo empate.

Para pensarmos em design editorial, fica a provocação: em um acontecimento histórico como esse, bastava mostrar Messi ou era possível criar uma imagem à altura do que Messi representa?

Porque, talvez, a melhor homenagem gráfica a um jogador tão criativo fosse justamente uma capa que também tivesse coragem de driblar o lugar comum.











Veja também como foram as capas dos jornais argentinos noticiando a morte do outro ídolo do futebol, Diego Maradona.


Relembre quando Messi ganhou a sua oitava bola de ouro e se tornou o mais vitorioso da história.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O dia seguinte às eleições: o exercício de pensar as capas dos jornais

Antes da imagem, existe a ideia.  Uma boa capa de jornal não é feita em minutos. É preciso pensar. E no dia seguinte às eleições, esse exercício se torna ainda mais evidente.

Todos os jornais têm praticamente a mesma notícia. Todos sabem quem venceu, quem perdeu, qual foi a votação e qual será a repercussão política. A informação é a mesma. O que muda é a maneira como cada publicação decide pensar visualmente esse acontecimento.

É aí que entra a criação.

O editor de arte ou capista não é aquele responsável por deixar a página bonita. Seu trabalho está muito mais próximo da interpretação. Ele precisa encontrar uma imagem, um conceito, uma metáfora ou uma construção gráfica capaz de condensar em poucos centímetros aquilo que a notícia representa.

Uma eleição pode ser representada por um rosto. Mas também pode ser representada por uma sombra, uma urna, uma multidão, uma bandeira, uma mudança de direção, um contraste, um vazio.

A questão não é encontrar uma imagem para acompanhar a notícia. É encontrar a imagem que melhor traduz a notícia. Essa diferença parece pequena, mas separa uma capa ilustrada de uma capa pensada. O trabalho do designer editorial não começa depois que o conteúdo está pronto, como se a redação produzisse a notícia e, depois, o capista simplesmente organizasse textos e imagens na página.

Na realidade, o design pode participar da própria construção da narrativa. E assim foi feita a capa de A Tribuna de hoje. A ideia foi apresentada ao editor e, depois de aprovada, o conteúdo editorial foi criado em cima do layout já estabelecido.

Neste caso, apostei em uma linguagem gráfica bastante direta, infográfica e de forte impacto visual, adequada à importância do resultado eleitoral e buscando para fugir do tradicional modelo com fotos dos candidatos lado a lado. 

O conceito central foi traduzir a oposição entre os dois candidatos divisão cromática — azul para Flávio Bolsonaro e vermelho para Lula, criando uma leitura imediata e quase simbólica da disputa.  A escolha de não utilizar fotografias dos concorrentes torna a capa mais icônica e editorial, aproximando-a de um cartaz político, sendo que os retratos em alto contraste funcionam como grandes massas gráficas.

Um detalhe que reforça a ideia visual da capa é o uso dos pictogramas de pessoas, representado os percentuais de votos volume gráfico, reforçando a dimensão quantitativa da eleição sem depender apenas dos números. Acredito que conseguimos transformar um resultado eleitoral essencialmente numérico em uma imagem-síntese, com poucos elementos e forte reconhecimento à distância.

Confesso que não vi muita criatividade nas capas dos jornais de hoje. Os concorrentes Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo publicaram layouts bem parecidos, com os candidatos ao cargo de presidente lado a lado e um mapa de como foi a votação no País.

Aqui, as capas dos jornais brasileiros de hoje, dia pós eleição presidencial.