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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Capas dos jornais após as eleições: tradição, mesmice e falta de ousadia. Mas a uma exceção

O dia seguinte às eleições, os jornais optaram pelo tradicional.

O resultado de uma eleição presidencial é um dos acontecimentos mais importantes para um país. É um momento de expectativa, tensão, comemoração e incerteza. Para os jornais, também é uma oportunidade de demonstrar como o design editorial pode traduzir um acontecimento histórico em uma imagem capaz de informar, emocionar e provocar reflexão.

Mas, ao observar as capas dos jornais desta segunda-feira, 26 de outubro, uma impressão se destaca: a mesmice na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em um acontecimento que oferece tantas possibilidades narrativas, visuais e simbólicas, boa parte das capas parece ter preferido o caminho mais seguro. O que não é errado. Composições previsíveis, com foto do vencedor,  manchetes diretas, cores tradicionais. Uma fórmula conhecida, eficiente para comunicar o resultado, mas que pouco explora a força visual e simbólica do momento.

Não digo que os capistas tenham de transformar a notícia em espetáculo. Isso pode muitas vezes confundir criatividade com exagero gráfico. O que eu gosto nestes momentos é o desafio de encontrar uma solução visual que tenha personalidade, que interprete o acontecimento e que faça o leitor parar por alguns segundos diante da banca ou da tela.

Talvez essa postura mais conservadora tenha uma explicação. Em uma eleição marcada por posições políticas opostas e por uma sociedade dividida, os jornais precisam transmitir credibilidade e evitar que suas escolhas visuais sejam interpretadas como manifestações de apoio ou rejeição a um candidato. Nesse contexto, a neutralidade pode ter pesado na decisão de seguir uma linguagem mais convencional.

E esse é um bom argumento para a escolha de cada jornal. Mas me questiono se ser imparcial significa, necessariamente, ser visualmente neutro?

Uma capa pode ser ousada sem ser partidária. Pode explorar tipografia, escala, enquadramento, espaços vazios, símbolos e contrastes sem favorecer politicamente ninguém. A criatividade não precisa estar a serviço de uma opinião. Pode estar a serviço da própria notícia.

O design editorial tem justamente essa capacidade de organizar informações, construir sentidos e estabelecer uma relação entre o acontecimento e o leitor. Em datas históricas, essa responsabilidade ganha outra dimensão. A capa deixa de ser apenas a embalagem da notícia e passa a integrar a memória visual daquele momento.

É claro que a capa de um jornal não precisa ser revolucionária todos os dias. A clareza, a hierarquia da informação e a tradição também têm seu valor. Mas, quando diferentes publicações recorrem praticamente ao mesmo repertório visual diante de um acontecimento de tamanha importância, vale perguntar se a segurança da fórmula não acaba limitando as possibilidades do próprio jornalismo.

FUGINDO À REGRA


Mas no universo das capas de hoje há uma exceção. O cearense O Povo, que aposta em uma solução gráfica de grande impacto: a fotografia em página inteira, a manchete sobreposta e pouquíssimos elementos concorrendo com a imagem principal. O resultado é uma capa que trabalha mais com a força simbólica da fotografia do que com a quantidade de informações.

A capa consegue transformar uma fotografia em narrativa editorial. O enquadramento, a escolha da imagem, a expressão de Lula, o vermelho dominante e a manchete branca trabalham juntos, em vez de funcionar como elementos independentes. Não há necessidade de uma montagem complexa, de múltiplas imagens ou de efeitos gráficos ostensivos. A solução foi o simples é mais.É um belo exemplo de como, no design de jornais, uma fotografia bem escolhida pode fazer o trabalho de vários elementos gráficos ao mesmo tempo.

Coincidentemente, o concorrente Diário do Nordeste publicou uma capa bastante semelhante à de O Povo. A imagem impactante mas que perde um pouco da força por não `rasgar`a página toda. Mas resultou em uma bela composição também.

 

No fim, a questão não é escolher entre imparcialidade e criatividade. É compreender que as duas podem ser impressas na primeira página de um jornal.

Abaixo, as capas dos jornais brasileiros de hoje, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.


































quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Messi foi criativo. As capas dos jornais, nem tanto

Messi sempre foi sinônimo de criatividade. Dentro de campo, inventou caminhos, driblou padrões e encontrou soluções que pareciam impossíveis.

Nas capas dos jornais argentinos que marcam sua despedida da seleção, porém, o cenário é bem diferente.

Visualmente, os capistas parecem ter escolhido o caminho mais seguro: grandes fotos de Messi, emoção, homenagem e uma construção gráfica bastante semelhante entre si. A importância do personagem é enorme, mas faltou justamente aquilo que Messi sempre teve de sobra dentro do campo de futebol: ousadia para fazer diferente.

É curioso perceber esse contraste. O jogador que passou a carreira quebrando expectativas termina sua trajetória cercado por capas que, em muitos casos, parecem jogar pelo empate.

Para pensarmos em design editorial, fica a provocação: em um acontecimento histórico como esse, bastava mostrar Messi ou era possível criar uma imagem à altura do que Messi representa?

Porque, talvez, a melhor homenagem gráfica a um jogador tão criativo fosse justamente uma capa que também tivesse coragem de driblar o lugar comum.











Veja também como foram as capas dos jornais argentinos noticiando a morte do outro ídolo do futebol, Diego Maradona.


Relembre quando Messi ganhou a sua oitava bola de ouro e se tornou o mais vitorioso da história.

domingo, 2 de agosto de 2026

Design editorial de jornal. A Tribuna e o especial Heroes Premiere Beach Tennis

Criar uma série de páginas com uma pegada especial para jornal exige muito mais do que organizar textos e fotografias. Neste projeto desenvolvido para A Tribuna, cada página sobre o torneio Heroes Premiere Beach Tennis foi pensada para construir uma narrativa visual consistente, explorando tipografia, recortes fotográficos, texturas e hierarquia da informação. Neste post, apresento um pouco dos bastidores do projeto gráfico e as decisões de design que deram identidade às páginas.

A ideia foi desenvolver uma identidade para todas as seis páginas da série, inspirada no próprio universo da modalidade. Para isso, fiz uso  recorrente da textura de areia. Ela se tornou o recurso principal dos layouts, criando uma relação comum entre as páginas. Isso é algo que muitas séries especiais erram ao fazer com que cada página fique parecendo de um jornal diferente. A intenção foi não deixar isso acontecer. A identidade fica clara em todas as edições.

O principal desafio foi criar ritmo aos layouts, evitando repetição. Assim, cada página, ainda que tenha a mesma identidade visual, apresenta composições diferentes que buscam prender a atenção do leitor. Ao longo da série, cada abertura recebeu uma solução gráfica própria, evitando a repetição de layouts e criando um ritmo de leitura agradável. Embora diferentes entre si, todas mantêm uma linguagem visual consistente, reforçando a unidade do caderno e conduzindo o leitor por uma sequência de informações organizada e equilibrada.

Com relação às imagens, o uso de fotos recortadas foi proposital para dar a impressão de que os personagens estão invadindo a página, como se estivessem em uma praia, pisando a areia. Para que o layout tivesse boa leitura e não ficasse com aspecto de pesado e massudo, procurei deixar espaços vazios, meio como uma praia mesmo, com áreas de respiro. No design editorial, cada escolha tem um propósito. O tamanho das fotografias, a hierarquia dos títulos, os espaços em branco e a distribuição dos elementos influenciam diretamente a experiência de leitura. Mais do que tornar a página atraente, o projeto gráfico deve facilitar a compreensão da informação e despertar o interesse pelo conteúdo.

De alguma forma, todas as páginas fazem forte referência ao beach tennis. A quadra, a raquete como fundo para o texto, a bolinha como identidade seja para texto, foto ou destaques, ou a silhueta dos atletas ancorar o texto.

Projetos como este me fazem acreditar que o jornal impresso continua sendo um espaço privilegiado para explorar soluções criativas de diagramação, fotografia e tipografia. Quando texto e design trabalham em sintonia, o resultado ultrapassa a função informativa e transforma a leitura em uma experiência visual.








VEJA TAMBÉM:

A SÉRIE DE CAPAS QUE FORAM 'VESTIDAS' COM AS CAMISAS CAMPEÃS DA SELEÇÃO BRASILEIRA.

OS BASTIDORES DO ESPECIAL DE 482 ANOS DA SANTA CASA DE SANTOS.

COMO FOI FEITA A SÉRIE MISSÃO PORTO & MAR - BRASIL/ESTADOS UNIDOS.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Capas dos jornais brasileiros repetem a mesma fórmula para destacar o título da Espanha na Copa do Mundo 2026

Quando um acontecimento do tamanho de uma final de Copa do Mundo acontece, espera-se que os jornais aproveitem a oportunidade para mostrar toda a força do design editorial. Afinal, uma capa histórica tem o poder de entrar para a memória do leitor tanto quanto a própria partida.

No entanto, as capas dos jornais brasileiros que destacaram a conquista da Espanha na Copa do Mundo de 2026 seguiram praticamente o mesmo roteiro: a tradicional fotografia da equipe levantando o troféu ocupando o alto da página, acompanhada de um título celebrando o título espanhol. A repetição foi tão grande que, em muitos casos, bastava trocar o logotipo do jornal para que as capas parecessem versões da mesma ideia.

E não me excluo dessa mesmice não. A capa que confeccionei para A Tribuna segue essa mesma linha. Talvez  por ser a fórmula que sempre deu certo, ou ainda por segurança de algo que foi feito antes e funcionou, evitando assim o risco de criar algo diferente e dar errado.

É claro que a imagem da taça erguida representa o momento máximo do futebol e dificilmente deixaria de aparecer. O problema não está na fotografia em si, mas na ausência de uma interpretação gráfica capaz de transformar esse instante em uma capa memorável. Em um cenário em que praticamente todos fizeram a mesma escolha, faltou ousadia para explorar enquadramentos diferentes, ilustrações, conceitos visuais ou soluções tipográficas que diferenciassem cada publicação.

Grandes acontecimentos costumam revelar os jornais que apenas registram a notícia e aqueles que conseguem contar uma história por meio do projeto gráfico. A conquista da Espanha mostrou que, apesar da importância do fato, predominou uma certa previsibilidade nas bancas. E justamente por isso vale observar essas primeiras páginas: elas revelam como o excesso de consenso pode fazer até um momento histórico perder parte do seu impacto visual.

As capas dos jornais espanhóis após a conquista da Copa

Somente dois jornais fugiram um pouco desse caminho, os dois com uma linha mais popular: o Extra e o Meia Hora, que procuram brincar com a famosa foto de Messi dando banho em Yamal há anos. Fora isso, tudo igual, inclusive o exagero do Correio* que parece não ser da Bahia, mas sim da Espanha.

Aqui no Se Vira Design, reuni essas capas para vermos como os jornais brasileiros retrataram o título da Espanha e discutir até que ponto a busca por segurança acabou deixando de lado a criatividade que uma Copa do Mundo merece.