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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Capas dos jornais brasileiros homenageiam Laura Cardoso e Glória Menezes

Duas gigantes, um mesmo espaço na memória brasileira

A morte de Laura Cardoso e Glória Menezes, duas das maiores referências da dramaturgia brasileira, ganhou um tratamento especial nas capas dos jornais do País. Mais do que simplesmente registrar a perda de duas atrizes consagradas, as primeiras páginas encontraram uma maneira visualmente significativa de reconhecer a dimensão de suas trajetórias: as duas receberam praticamente o mesmo espaço, o mesmo destaque e a mesma importância editorial.

É uma escolha que chama atenção porque, em uma capa de jornal, espaço é discurso. O tamanho de uma fotografia, a posição de um título e a área destinada a uma notícia estabelecem uma hierarquia de importância. Ao colocar Laura Cardoso e Glória Menezes lado a lado, com retratos de dimensões semelhantes e tratamento gráfico equivalente, os jornais brasileiros deixam evidente que não se trata de uma homenagem a uma única grande estrela, mas à perda simultânea de duas gigantes de uma mesma geração da cultura nacional.

Visualmente, as capas encontram soluções diferentes para construir uma mesma ideia de equilíbrio. Os rostos das duas atrizes ocupam áreas de grande visibilidade e estabelecem entre si uma relação de equilíbrio. Não existe uma imagem claramente dominante ou uma personagem secundária. A composição faz com que o leitor perceba imediatamente que as duas histórias devem ser lidas juntas.

Essa decisão ganha ainda mais força porque Laura e Glória carregavam trajetórias que atravessaram décadas. Foram presenças constantes no teatro, no cinema e, sobretudo, na televisão brasileira, participando de produções que ajudaram a formar o imaginário de diferentes gerações. Por isso, a proximidade visual criada pelas capas acaba funcionando também como uma representação gráfica de um patrimônio artístico compartilhado.

Os títulos também cumprem um papel fundamental nessa construção. Expressões como “Adeus a duas gigantes” e “Céu de estrelas” sintetizam a dimensão da perda e, ao mesmo tempo, reforçam a ideia de que estamos diante de duas figuras colocadas no mesmo patamar de relevância. A palavra “duas” ganha, nesse contexto, um peso editorial: não há uma homenagem individual acompanhada de uma segunda notícia, mas uma única narrativa sobre duas trajetórias extraordinárias que chegaram ao fim em um intervalo muito curto.

A força dessas capas está justamente na ausência de competição visual. Laura Cardoso não precisa ocupar o espaço de Glória Menezes, e Glória não precisa ocupar o espaço de Laura. Há espaço para as duas. A divisão equilibrada da primeira página transforma a própria composição em uma declaração de reconhecimento.































quarta-feira, 29 de julho de 2026

A primeira capa de O Globo (1925): uma análise do design editorial que marcou a imprensa brasileira

Em 29 de julho de 1925 chegava às bancas a primeira edição de O Globo. Cem anos depois, aquela capa continua sendo um documento fascinante da evolução do design editorial brasileiro, revelando como tipografia, hierarquia visual e diagramação ajudavam a construir credibilidade em uma imprensa que ainda consolidava sua identidade.

Como era a primeira capa de O Globo em 1925?


Uma capa construída pela tipografia

O aspecto que chama muito a atenção é a ausência de uma manchete dominante. Ao contrário dos jornais atuais, a primeira página é formada por diversos blocos de texto de importância semelhante. O leitor não era conduzido por uma hierarquia visual clara. Ele precisava explorar a página em busca das notícias de interesse. Essa solução gráfica era comum na década de 1920 porque o jornal era entendido como um repositório de informações, e não como um produto pensado para leitura rápida.

A influência francesa

O projeto gráfico segue fortemente a tradição francesa, que influenciava grande parte da imprensa brasileira.com uma diagramação extremamente vertical; colunas estreitas e numerosas; uso quase exclusivo de tipos serifados; poucos espaços em branco; grande densidade de texto; títulos discretos e uniformes.

Esse modelo privilegiava elegância tipográfica e racionalidade em vez do impacto visual.


CONHEÇA AQUI UM POUCO MAIS SOBRE A HISTÓRIA DE O GLOBO


O nome do jornal como principal elemento gráfico



Na ausência de fotografias e grandes manchetes, o logotipo de O Globo torna-se o elemento visual mais importante da página, onde o cabeçalho apresenta leras desenhadas especialmente para o jornal; grande contraste entre traços finos e grossos; composição clássica; equilíbrio e simetria. Na prática, a marca precisava comunicar prestígio e credibilidade logo no primeiro contato com o leitor.

A fotografia ainda era secundária

Na década de 1920 a impressão em rotativas dificultava a reprodução de imagens com boa qualidade. Por isso o uso de fotografias era raro. Ilustrações apareciam apenas ocasionalmente, fazendo com que praticamente toda a informação da página dependesse da tipografia.


A tipografia da primeira edição de O Globo

O primeiro elemento que chama a atenção é cabeçalho do jornal. O nome O GLOBO ocupa toda a largura da página em uma tipografia serifada, pesada e de alto contraste, transmitindo autoridade e credibilidade — características essenciais para um veículo que chegava ao mercado.

Logo acima, o selo "Edição das 18 Horas" reforça o caráter imediato da publicação, evidenciando sua vocação como jornal vespertino.

A manchete principal, "Voltam-se as vistas para a nossa borracha!", utiliza uma fonte sem serifa, em caixa alta, solução que representava uma tendência moderna para a época. O objetivo era chamar a atenção rapidamente do leitor nas bancas.

Outro aspecto marcante é a variedade tipográfica. A página combina fontes serifadas, sans-serif, itálicos, negritos e diferentes tamanhos de letras para estabelecer uma clara hierarquia visual entre manchetes, chamadas, notas e anúncios.


O grid e a diagramação do jornal O Globo em 1925



A diagramação segue um grid extremamente rígido, organizado em sete colunas verticais.

Praticamente não existe espaço em branco. A mancha gráfica ocupa quase toda a página, com margens reduzidas, refletindo uma época em que o papel era um recurso caro e cada centímetro precisava ser aproveitado.

Para organizar esse grande volume de informação, os diagramadores recorreriam intensamente aos fios verticais e horizontais, que funcionam como uma estrutura invisível capaz de separar notícias, orientar a leitura e criar ordem, evitandor que o leitor se perdesse na densidade de texto. Os fios dividem visualmente cada notícia, funcionando como a estrutura invisível do layout.

Mesmo cem anos depois, essa solução continua sendo um dos princípios fundamentais do design editorial.

Embora o texto ainda seja predominante, a imagem já assume papel importante na construção da capa.

No canto inferior direito aparece uma fotografia do empresário Henry Ford, enquanto outra reportagem utiliza imagens para mostrar obras urbanas na seção A Cidade Esburacada.

Em 1925, publicar fotografias na primeira página representava um investimento tecnológico significativo. O processo de produção dos clichês metálicos era caro, demorado e exigia grande precisão técnica.

As ilustrações também aparecem com destaque. Charges e caricaturas ajudam a equilibrar a composição, oferecendo humor, crítica política e descanso visual em uma página repleta de informação.


Seria esse o princípio da infografia?

Outro detalhe interessante está na coluna da direita. Pequenos desenhos comparativos de automóveis ilustram o crescimento da frota nacional. Embora bastante simples, esses elementos podem ser considerados uma forma inicial de design da informação ou infografia, recurso que buscava transformar números em informação visual mais acessível ao leitor. Hoje, gráficos e infográficos são parte indispensável dos jornais. Em 1925, ainda davam seus primeiros passos. Para compreender a importância dessa capa, é preciso observar o contexto gráfico da época.


Como eram os jornais brasileiros na década de 1920?

O horror do espaço em branco

Uma das principais características dos jornais dos anos 1920 era o chamado horror vacui, ou, literalmente, o medo do vazio, do espaço em branco, do respiro, tão usado no design atual.

Como o papel possuía custo elevado, praticamente todo o espaço disponível era ocupado por notícias, anúncios ou ilustrações. Para os olhos atuais, a página pode parecer excessivamente carregada. Na época, entretanto, ela transmitia justamente a sensação de riqueza de conteúdo. Outro fator determinante era a utilização das máquinas de linotipo, responsáveis pela composição do texto em metal quente. Essa tecnologia favorecia páginas organizadas em colunas rígidas e dificultava experimentações gráficas mais ousadas. Por isso, praticamente todos os jornais apresentavam estruturas bastante semelhantes.

A década de 1920 também marcou a consolidação do fotojornalismo.

Se os jornais do século XIX eram predominantemente compostos por texto, as fotografias passaram a exercer um papel decisivo para atrair leitores nas bancas. Esse movimento abriria caminho para as capas altamente visuais que se tornariam comuns nas décadas seguintes.

Um fenômeno importante foi a crescente presença da publicidade. Os anúncios utilizavam lettering desenhado à mão, molduras ornamentadas e ilustrações inspiradas no Art Déco e em estilos gráficos ainda herdados do final do século XIX. A convivência entre jornalismo e publicidade contribuiu para tornar as páginas visualmente mais ricas e diversificadas.

A criação de jornais destinados ao final da tarde também alterou a forma de diagramar as capas. Como disputavam a atenção de quem voltava do trabalho, essas publicações precisavam ser mais chamativas, utilizando manchetes maiores, títulos de forte impacto e uma organização visual capaz de convencer o leitor em poucos segundos.


Uma capa que ainda ensina design editorial

Quase um século depois, a primeira edição de O Globo continua sendo uma referência para estudantes, jornalistas e designers. Ela mostra que, mesmo diante de severas limitações tecnológicas, já existia uma clara preocupação com hierarquia da informação, organização do grid, tipografia e experiência de leitura. Ao observar essa capa, fica evidente que muitos dos fundamentos do design editorial contemporâneo nasceram muito antes da era digital e continuam presentes nas redações e nos projetos gráficos atuais.

Mais do que um jornal histórico, a primeira edição de O Globo demonstra como boas decisões de design permanecem relevantes um século depois. A organização das informações, a clareza tipográfica e a construção visual da credibilidade continuam sendo princípios fundamentais para jornais impressos e digitais.


Se você gosta de analisar capas históricas, jornais e revistas que marcaram época, confira também estes artigos do Se Vira Design:

OS 70 ANOS DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS

CAPAS HISTÓRICAS DE A TRIBUNA NO ANIVERÁRIO DA CIDADE DE SANTOS

A RENÚNCIA DE COLLOR E A MORTE DE DANIELA PERES

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Capas dos jornais brasileiros repetem a mesma fórmula para destacar o título da Espanha na Copa do Mundo 2026

Quando um acontecimento do tamanho de uma final de Copa do Mundo acontece, espera-se que os jornais aproveitem a oportunidade para mostrar toda a força do design editorial. Afinal, uma capa histórica tem o poder de entrar para a memória do leitor tanto quanto a própria partida.

No entanto, as capas dos jornais brasileiros que destacaram a conquista da Espanha na Copa do Mundo de 2026 seguiram praticamente o mesmo roteiro: a tradicional fotografia da equipe levantando o troféu ocupando o alto da página, acompanhada de um título celebrando o título espanhol. A repetição foi tão grande que, em muitos casos, bastava trocar o logotipo do jornal para que as capas parecessem versões da mesma ideia.

E não me excluo dessa mesmice não. A capa que confeccionei para A Tribuna segue essa mesma linha. Talvez  por ser a fórmula que sempre deu certo, ou ainda por segurança de algo que foi feito antes e funcionou, evitando assim o risco de criar algo diferente e dar errado.

É claro que a imagem da taça erguida representa o momento máximo do futebol e dificilmente deixaria de aparecer. O problema não está na fotografia em si, mas na ausência de uma interpretação gráfica capaz de transformar esse instante em uma capa memorável. Em um cenário em que praticamente todos fizeram a mesma escolha, faltou ousadia para explorar enquadramentos diferentes, ilustrações, conceitos visuais ou soluções tipográficas que diferenciassem cada publicação.

Grandes acontecimentos costumam revelar os jornais que apenas registram a notícia e aqueles que conseguem contar uma história por meio do projeto gráfico. A conquista da Espanha mostrou que, apesar da importância do fato, predominou uma certa previsibilidade nas bancas. E justamente por isso vale observar essas primeiras páginas: elas revelam como o excesso de consenso pode fazer até um momento histórico perder parte do seu impacto visual.

As capas dos jornais espanhóis após a conquista da Copa

Somente dois jornais fugiram um pouco desse caminho, os dois com uma linha mais popular: o Extra e o Meia Hora, que procuram brincar com a famosa foto de Messi dando banho em Yamal há anos. Fora isso, tudo igual, inclusive o exagero do Correio* que parece não ser da Bahia, mas sim da Espanha.

Aqui no Se Vira Design, reuni essas capas para vermos como os jornais brasileiros retrataram o título da Espanha e discutir até que ponto a busca por segurança acabou deixando de lado a criatividade que uma Copa do Mundo merece.





























segunda-feira, 6 de julho de 2026

Capas dos jornais de 1982 e a coincidência do Brasil eliminado da copa no mesmo dia, 44 anos depois

 Em 6 de julho de 1982, o País acordou com as bancas de jornais estampando a dor da inesquecível derrota por 3 a 2 para a Itália, resultado que eliminou a seleção de Telê Santana, considerado por muitos o melhor time que o Brasil já teve, e encerrou o sonho do tetracampeonato. As capas refletiam um sentimento coletivo de incredulidade, misturando tristeza, frustração e homenagens a um time que, apesar da eliminação, entrou para a história pelo futebol brilhante que apresentou.

Quarenta e quatro anos depois, a coincidência. Novamente em um 6 de julho, desta vez em 2026, os jornais brasileiros voltaram a destacar uma eliminação da Seleção em Copa do Mundo. A derrota para a Noruega  reacendeu o sentimento de decepção e mostrou como o futebol é capaz de repetir, em datas diferentes, emoções muito parecidas.

Mais cedo, publiquei aqui as capas de hoje, de 2026. 

Agora, para relembrar, posto as primeiras páginas de 1982, com destaque para histórica do Jornal da Tarde, que se tornou icônica no universo do design de jornais com a foto do menino chorando nas arquibancadas do Estádio Sarriá, sem títulos e manchetes. Apenas a imagem e a data.

Separadas por mais de quatro décadas, as capas de 1982 e 2026 registram momentos distintos da história da Seleção Brasileira, mas unem duas gerações pelo mesmo impacto: o fim inesperado de um sonho mundial. São páginas que eternizam não apenas resultados, mas também o estado de espírito de um país apaixonado por futebol.

Abaixo, as primeiras páginas dos jornais brasileiros de 6 de julho de 1982.