
Durante mais de três décadas, a revista Fluir foi uma das principais publicações brasileiras dedicadas ao surfe. Criada em 1983, a revista acompanhou a transformação do esporte, da fotografia, da indústria editorial e da própria cultura visual ligada ao surfe brasileiro.
A Fluir deixou de circular em 2016, mas sua trajetória permanece interessante para quem gosta de revistas, fotografia, tipografia e design editorial.
Eu mesmo, durante minha juventude, comprei alguns exemplares da Fluir. Nunca fui surfista, mas o visual, as imagens e as fotografias maravilhosas tornavam a revista um deleite. As imagens, por sinal, sempre foram um dos grandes pontos fortes da publicação. Grandes nomes da fotografia passaram por suas páginas.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das características mais interessantes da Fluir: a capacidade de transformar uma fotografia de surfe em uma imagem de capa capaz de vender não apenas uma revista, mas uma ideia de estilo de vida.
A história da revista Fluir
A Fluir surgiu em 1983 com o título Fluir – Terra, Mar e Ar. O primeiro número chegou às bancas em setembro daquele ano. A publicação foi criada por cinco jovens paulistanos ligados ao surfe e, inicialmente, tinha uma proposta mais ampla, dedicada aos chamados esportes radicais.
O próprio nome explicava essa proposta.
O mar estava representado pelo surfe; a terra, pelo bicicross e posteriormente pelo skate; e o ar, pelo voo livre. Estudos sobre os primeiros números da revista mostram que essa fase poliesportiva durou aproximadamente um ano. Aos poucos, os outros esportes foram desaparecendo e o surfe passou a ocupar praticamente todo o espaço editorial.
A mudança ajudou a construir a identidade que tornaria a Fluir uma referência no mercado brasileiro de revistas de surfe.
Mais do que simplesmente informar sobre competições, atletas e ondas, a publicação ajudou a construir uma representação visual e cultural do universo do surfe.
A fotografia como protagonista
Uma das coisas que mais chamam a atenção nas capas da Fluir é a importância da fotografia.
Em muitas delas, a imagem ocupa praticamente toda a área disponível. O objetivo não é simplesmente mostrar um surfista, mas registrar um instante de grande impacto visual: um tubo, um aéreo, uma batida ou o momento em que o atleta e a onda parecem formar uma única imagem.
A água, naturalmente, oferece um enorme repertório visual.
A espuma branca contra o azul do mar, a transparência da onda, as gotas iluminadas pelo sol e a silhueta do surfista criam imagens naturalmente dramáticas.
Por isso, a escolha da fotografia de capa deve ter sido um dos grandes desafios editoriais da publicação. Entre dezenas de imagens tecnicamente boas, era necessário encontrar aquela que tivesse força suficiente para representar toda uma edição.
É aí que entra o trabalho conjunto do editor de fotografia, do diretor de arte e do designer.
A fotografia precisa chamar a atenção na banca, mas também precisa dialogar com o logotipo, com as chamadas e com toda a arquitetura gráfica da capa.
É uma combinação de jornalismo, fotografia e design.
O logotipo Fluir
O logotipo também desempenha papel fundamental na identidade visual da revista.
Ao longo de sua história, a marca passou por diferentes tratamentos, mas sempre esteve associada à ideia de movimento, fluidez e dinamismo.
Uma característica particularmente interessante em muitas capas é a relação entre o logotipo e a fotografia.
Em determinadas situações, a imagem do surfista, a crista da onda ou a espuma parece avançar sobre parte das letras. O resultado cria uma sensação de profundidade e faz com que a fotografia e a marca deixem de ser elementos separados.
É um recurso bastante utilizado no design de revistas, mas que ganha um significado especial no caso da Fluir: a onda parece literalmente atravessar o nome da publicação.
A primeira capa da revista Fluir
A primeira capa da Fluir, publicada em 1983, é um documento particularmente interessante do design editorial brasileiro.
Ela mostra uma publicação ainda experimental, que estava procurando sua identidade e, ao mesmo tempo, tentando estabelecer uma linguagem própria para falar com um público jovem interessado em esportes radicais.
A primeira edição utilizava o subtítulo Terra, Mar e Ar, coerente com a proposta inicial da revista.
O logotipo é um dos elementos mais marcantes da composição. Seu desenho apresenta curvas e formas que dialogam visualmente com a ideia de movimento e com o próprio universo do surfe.
Mas o elemento que mais chama a atenção é a utilização da fotografia.
A imagem principal aparece enquadrada por uma representação de filme fotográfico de 35 mm, com os furos característicos da película. A própria utilização desse elemento já funciona como uma espécie de declaração editorial: a fotografia é parte fundamental da identidade da revista.
Na capa, o filme não funciona apenas como moldura. Ele se transforma em elemento gráfico.
O enquadramento diagonal cria movimento e conduz o olhar para a fotografia principal. Na parte inferior, os slides de 35 mm utilizados como pequenas imagens complementares reforçam a ideia de que estamos diante de uma publicação que pretende apresentar uma coleção de momentos.
E existe ainda outro detalhe interessante.
As imagens secundárias remetem aos outros esportes que faziam parte da proposta inicial da Fluir, como bicicross e voo livre.
A capa, portanto, consegue sintetizar a proposta editorial daquele primeiro momento: surfe, esportes radicais, fotografia e uma linguagem gráfica direcionada a um público jovem.
Uma capa que revela uma época
O aspecto mais interessante da primeira capa talvez seja justamente o fato de ela revelar o momento histórico em que a revista nasceu.
A combinação de cores fortes, fotografia, filme fotográfico e elementos gráficos transmite uma sensação de experimentação.
Não parece uma revista que nasceu com uma identidade completamente pronta.
E isso é interessante.
A própria história editorial da Fluir mostra que a primeira edição teve caráter experimental e que, posteriormente, a publicação passou por um processo de profissionalização e transformação gráfica. Pesquisas sobre os primeiros anos da revista apontam justamente essa evolução da estrutura editorial e técnica.
A primeira capa pode ser vista, portanto, como o ponto de partida de uma identidade que seria aperfeiçoada ao longo das décadas.
A evolução das capas da Fluir
É justamente quando colocamos várias capas da Fluir lado a lado que a história da revista se torna ainda mais interessante.
Ao longo dos anos, mudam as fotografias, os logotipos, as tipografias, as cores, os recursos de impressão e a maneira de organizar as chamadas.
Mas existe uma característica que permanece: a fotografia continua sendo o grande protagonista.
Nos primeiros anos, percebe-se uma linguagem mais experimental, com maior presença de elementos gráficos e referências à tecnologia fotográfica.
Com a consolidação da revista, a imagem passa a ganhar cada vez mais espaço e força.
A capa deixa de ser apenas uma apresentação do conteúdo editorial e passa a funcionar como uma espécie de pôster.
O surfista, a onda e o movimento precisam provocar uma reação imediata.
É uma estratégia particularmente adequada a uma publicação de surfe: antes mesmo de ler qualquer chamada, o leitor precisa sentir a energia daquela imagem.
Das bancas para a memória editorial
A Fluir também acompanhou uma transformação tecnológica importante.
Nas primeiras décadas da revista, a produção fotográfica dependia de filmes, revelação, ampliações, fotolitos e processos gráficos muito diferentes dos atuais.
Com o avanço da fotografia digital e dos sistemas de produção editorial, todo esse processo foi se transformando.
A própria revista registrou, ao longo de sua história, essa evolução tecnológica. Em 2010, por exemplo, a Fluir chegou à edição de número 300, um marco importante para a publicação.
Em 2013, a revista comemorou 30 anos de existência. Na ocasião, a publicação destacava a trajetória iniciada em 1983 e sua relação com fotógrafos, surfistas e viagens pelos oceanos.
Esses marcos ajudam a entender a dimensão que a Fluir alcançou dentro do mercado editorial brasileiro.
O fim da revista Fluir
A história, porém, chegou ao fim.
Depois de mais de três décadas de trajetória, a Fluir encerrou sua publicação em 2016. A última edição foi publicada em maio daquele ano.
O encerramento aconteceu em um período de profundas transformações no mercado editorial, com o crescimento do consumo de conteúdo digital e audiovisual e a perda de espaço das revistas impressas.
Mas o fim da publicação não apaga sua importância.
Pelo contrário.
Hoje, quando olhamos para suas capas, podemos enxergá-las também como documentos de uma época.
Elas registram a evolução do surfe brasileiro, da fotografia esportiva, da tecnologia gráfica e do próprio design de revistas.
O legado da Fluir para o design editorial
Para quem trabalha ou se interessa por design editorial, a Fluir oferece uma espécie de linha do tempo visual.
Suas capas permitem observar a transformação da fotografia, da tipografia, da impressão e da direção de arte ao longo de mais de três décadas.
Também mostram como uma revista especializada pode construir uma identidade forte sem abrir mão da experimentação.
A fotografia sempre foi fundamental.
A onda, o surfista, o movimento e a paisagem não são apenas ilustrações do conteúdo. Eles são parte da própria identidade da publicação.
E talvez esse seja um dos maiores legados da Fluir: mostrar que uma revista especializada pode construir uma linguagem visual capaz de ultrapassar o próprio assunto que aborda.
Mesmo quem, como eu, nunca foi surfista pode reconhecer a força dessas imagens.
Porque, no fim das contas, a Fluir não vendia apenas informação sobre surfe.
Vendia movimento, aventura, liberdade e um determinado modo de enxergar o mundo.
E é justamente por isso que suas capas continuam interessantes para quem gosta de fotografia, revistas e design editorial.

A primeira capa da revista Fluir, publicada em 1983
Algumas capas da revista Fluir
Abaixo, uma seleção de capas da Fluir ao longo de sua trajetória.
É interessante observar a transformação visual da publicação: o logotipo, a tipografia, as fotografias, a organização das chamadas, os recursos gráficos e, principalmente, a maneira como cada geração de designers e diretores de arte encontrou novas formas de representar o universo do surfe.
Mais do que uma coleção de capas, esse conjunto funciona como uma pequena história visual da revista.