Há acontecimentos que desafiam o design editorial. O 11 de Setembro de 2001 é um deles. Vinte e cinco anos depois, a gente tem de pensar e repensar como ilustrar na capa de A Tribuna um dos piores acontecimentos da história da humanidade. Escolher não apenas relembrar os ataques ao World Trade Center, mas construir visualmente uma narrativa sobre memória, impacto e a passagem do tempo.
Na edição de hoje de A Tribuna, a capa e a página interna especial trabalham juntas, mas com propostas bastante diferentes.
Na a capa, abri mão de imagens na área central, deixando duas colunas livres, justamente para criar a referência às torres, numa espécie de silêncio antes da informação. Em vez de utilizar imediatamente fotografias dos prédios, dos aviões ou da destruição, o projeto cria duas grandes áreas verticais muito claras, posicionadas no centro da página que se tornam silhuetas arquitetônicas abstratas. Mas o desafio era transformar esse vazio em informação.
Uma solução visual que fizesse com que o leitor tivesse a leitura de que as torres estão presentes justamente porque não estão mais ali.
Essa medida também conversa muito bem com a própria natureza do acontecimento. O World Trade Center era uma presença arquitetônica monumental na paisagem de Nova York. Ao retirar as torres da fotografia e transformá-las em espaços vazios, o design desloca a discussão da imagem documental para a memória.
Na página interna o projeto muda completamente de comportamento.
Se na capa trabalhei com com branco e áreas invisíveis para que o leitor tivesse um impacto visual claro mas sem chocar, o layout interno usa o fundo preto para criar imediatamente uma ruptura com o restante do jornal.
O uso das Torres Gêmeas como suporte ao texto deixa claro ao leitor o tema da reportagem. Mas elas eram necessárias para compor o layout. O título, também usado na capa, é uma repetição deliberada e proposital. Assim, as duas páginas passam a funcionar como partes de um mesmo projeto editorial.
Para compor melhor o layout, o uso das imagens se fez necessário. A fotografia do avião atingindo a segunda torre ocupa uma posição dominante no lado direito, sendo a imagem documental que ancora toda a narrativa, com enorme força visual. Mas optei por não usar a fotografia grande, mas sim, ao lado dos textos, depoimentos e outras fotografias.
Dessa forma, o texto aplicado sobre as torres se transforma na imagem-símbolo da narrativa.
Nesse layout, procurei usar três elementos de formas diferentes para dar movimento à página.
1 - Os quatro retratos circulares são uma das soluções gráficas mais interessantes da página, quebrando a predominância dos retângulos — fotografia principal, colunas de texto e reprodução da capa antiga — criando ritmo dentro da composição.
2 - A reprodução da antiga capa de A Tribuna de 2001, com a manchete Dia do terror, tem o impacto visual e se torna o elemento mais importante para o conceito de memória. O jornal de 2026 olha para o jornal de 2001.
3 - A linha do tempo, na silhueta de Nova York funciona como uma base visual para a cronologia. As torres aparecem novamente incorporadas à paisagem, e os horários (8h46, 9h03, 9h59 e 10h28) conduzem o leitor pela sequência dos acontecimentos.
O que eu tentei criar com essas páginas foi o contraste entre elas mas ainda assim, relacioná-las.
A capa faz o leitor imaginar. A página interna faz o leitor lembrar.
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